A Armadilha da Música Cristã

Do PavaBlog

Joel Heng Hartse

Quando eu era adolescente, o rock cristão era quase a minha religião. Não me lembro de ler a Bíblia por vontade própria, mas todas as paredes do meu quarto estava forradas com anos de recortes de revistas da minha banda cristã favorita. Para ser honesto, não acho que isso era totalmente errado. Eu precisava de algo para reverenciar, e essas bandas cristãs que eu ouvia me faziam pensar sobre todos os tipos de assunto que precisava pensar e nas outras coisas que ainda são importantes para mim até hoje: amor, misericórdia, justiça, morte, vida, esperança, alegria, Deus. Portanto, realmente não estou preocupado em pensar que aquilo era um sacrilégio. Sim: eu fui um roqueiro cristão.

Não conhecia as gravadoras famosas na época, como Kill Rock Stars ou Sub Pop, mas sabia de cor o nome de todas as bandas dos selos cristãos alternativos. Comprava os CDs do Poor Old Lu (não do Nirvana), lia apenas revistas cristãs e só escutava programas de rádio evangélicas. O rock and roll era parte de um pacote que incluía igreja, estudos bíblicos para jovens, culto de jovens, oração e evangelização.

Apesar de tudo, acho que nunca foi um cristão fundamentalista, porque não me vejo nesses testemunhos, às vezes engraçados, às vezes dolorosos, de pessoas que hoje com mais de 30 reclamam como alguém lhes puxou o tapete espiritual, que foram criados em ambientes fundamentalistas e que entraram em crise a primeira vez que alguém lhes disse que Adão e Eva não eram literalmente os dois primeiros seres humanos. Para eles, tudo que criam foi posto em dúvida e logo em seguida passaram a ser cínicos ou até mesmo ateus. Embora o meu entendimento do cristianismo tenha mudado ao longo dos anos, não foi isso o que aconteceu comigo. Eu não “perdi” minha fé.

Mas eu me lembro do momento exato que deixei de acreditar na música cristã.

Na década de 1990, se eu estava em um show cristão, é bem provável que o Audio Adrenaline era a banda de abertura. Não sei por que eles ficaram nessa condição durante muitos anos. Eu os vi abrir umas cem vezes para dc Talk e o mesmo tanto para o Newsboys, toda turnê era a mesma coisa. A gravadora deles, ForeFront Records, ajudava a pintar uma imagem de banda rebelde para o Audio Adrenaline. Uma jogada genial foi o lançamento de um álbum ao vivo, chamado Live Bootleg [Pirata ao vivo], cuja capa era uma fotografia em preto e branco no melhor estilo rock-and-roll. Apenas um dos membros da banda balançando a cabeça, de uma maneira totalmente roqueira. Não havia nada de pirata naquele disco, era uma gravação autorizada e de uma grande gravadora. O Audio Adrenaline sequer tinha um baterista nos seus dois primeiros discos, mas eram rotulados então como uma banda rebelde ultra grunge. Se você tivesse que compará-los a uma banda de rock secular, provavelmente os chamaria de um “Spin Doctors cristão”. Sua música de sucesso onipresente nas rádios cristãs era “Big House” [Casa Grande] que falava do céu, não da cadeia, usava quatro acordes e sua pegada parecia a mesma da música de maior sucesso naquele ano, “Two Princes” do Spin Doctors.

Os shows do Audio Adrenaline naqueles tempos eram cheios de performances com pulos e gritos, especialmente na sua música que fazia sucesso em festas cristãs “We’re a band” [Nós somos uma banda], cujo refrão dizia: “Nós somos uma banda! Nós somos uma banda! Nós somos uma banda! “O Audio Adrenaline era, sem dúvida, uma banda. Por isso a sua traição doeu mais que qualquer coisa que eu pudesse imaginar.

Não quero colocar a culpa no Audio Adrenaline. Esta história poderia ser recontada com quase qualquer banda de rock cristão famosa na década de 1990, em qualquer show. Mas vou contar o que aconteceu: No meio do show, depois de 45 minutos ou mais de suar, balançarem a cabeça e cantarem que eles eram uma banda, o Audio Adrenaline pediu um tempo para falar ao público sobre Jesus. Isso não era incomum em shows cristãos, os jovens na platéia toleravam o papo com alegria, embora raramente respondessem ao apelo. Quando um dos membros da banda se aproximou do microfone, minha vida mudou. Mas não da forma como a banda pretendia.

“Só quero dizer uma coisa”, disse ele. A platéia fez um silêncio reverente. “A música que fazemos é um truque.” Ele começou a explicar que a única razão pela qual eles tocavam suas música era para chamar nossa atenção e nos mostrar a importância de aceitar Jesus Cristo como salvador. “Jesus o ama”, ele continuou, “e quer ter um relacionamento pessoal com você. A música é algo secundário, não é o mais importante. É uma armadilha. Não importa”.

Não importa? Fiquei espantado. Não importa! A coisa pela qual eu mais me interessava não importava para eles.

Fiquei confuso e depois com raiva. Como você se atreve a me fazer gostar tanto de música? Como vocês se atrevem: gravadoras, rádios, e livrarias cristãs? Bandas de rock e grupos de jovens, como se atrevem a me fazer apaixonar pelo rock and roll e depois me dizer que é tudo uma farsa, que a única razão de eu estar ouvindo sua música é por que, atrás de tudo isso, está a coisa certa em que acreditar. Eu já creio! Posso ficar apenas com a música? E vocês do Audio Adrenaline? Disseram há poucos minutos em uma de suas músicas que eram uma banda. Uma banda!

Eu havia tolerado muitas armadilhas mesquinhas dessa subcultura em nome da música que eu amava. Porém, não podia tolerar uma banda mentindo para mim. Aquele foi o começo do fim do meu caso de amor adolescente com o rock cristão. Mas não fiquei amargurado. Esse episódio foi o empurrão que eu precisava, uma situação que acabaria abrindo para mim um mundo no qual Deus pode ser experimentado em mil lugares além de uma igreja e mil canções que não eram cânticos de louvor. Antes não achava que isso seria possível.

Suspeito que muitos de nós já perceberam isso, de uma maneira ou de outra. Talvez você tenha vivido uma história semelhante. Essa história continua, mas treinei meus ouvidos para identificar vestígios do sagrado em todo tipo de música. Acho que, de certa forma, devo isso a uma banda que declarou, certa vez, que não era uma banda. Embora, para mim, eles realmente eram.

Joel Heng Hartse já escreveu, sobre música para muitas publicações evangélicas, Este texto é uma adaptação do capítulo 4 de seu novo livro, Sects, Love, Rock and Roll, editora Cascade AQUI

Fonte: Relevant

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